sexta-feira, dezembro 01, 2006

1 de Dezembro - Dia Mundial do Combate à SIDA

As pessoas notificadas com o vírus da sida – VIH – em Portugal são 29 461, mas esse número deverá ser de 60 mil devido ao défice de notificação. O tratamento destes doentes custa, ao Serviço Nacional de Saúde, 504,7 milhões de euros/ano, ou seja, cerca de 8413 euros por cada doente. Outras contas, mais negras, indicam que, por dia, morrem no País três pessoas vítimas da doença.
No Dia Mundial da Sida, que hoje se assinala, é altura para balanços de vida e, para quem tem a responsabilidade de gerir um hospital, é tempo de fazer contas.
José Miguel Boquinhas, antigo secretário de Estado da Saúde e actual presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental – que agrupa os hospitais Egas Moniz, S. Francisco Xavier e Santa Cruz –, sabe bem o que representam os custos com os medicamentos para a sida. Em apenas dez meses, de Janeiro a Outubro deste ano, gastou onze milhões de euros no tratamento de 1569 doentes com o VIH. Até ao final do ano, essa despesa será de 13,2 milhões de euros. “O nosso hospital [Egas Moniz] concorre com outra unidade de saúde no tratamento dos doentes de sida. Por isso, se fizermos as contas ao custo de cada doente, que é de 8413 euros por ano, facilmente se conclui que, a nível nacional, a despesa atinge os 504,7 milhões de euros no tratamento dos cerca de 60 mil infectados com sida”, disse ao CM.
Os casos de infectados com sida notificados às autoridades de saúde são 29 461, mas este é um número que não corresponde à realidade, conhecida que é a falta de notificação dos diagnósticos.
IGNORAR A INFECÇÃO
Luís Mendão, da direcção do Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/Sida (GAT), justificou a diferença entre a estimativa e os números oficiais com a subnotificação do diagnóstico, a sua realização tardia e com o facto de existir “sempre uma percentagem elevada da população que não sabe que é seropositiva”.
Contudo, a Agência das Nações Unidas para a Sida estima que, em Portugal, o número de pessoas infectadas ronda os 32 mil casos.
Para os 60 mil infectados pelo VIH que o GAT aponta existirem no nosso país contribuem igualmente as cerca de 720 novas infecções que se estima verificarem-se todos os anos.
Henrique Barros, coordenador nacional da luta contra a doença, apresenta hoje o novo Programa Nacional. Ontem disse que um dos objectivos a que se propõe levar a cabo é ter um conhecimento real da infecção em Portugal e ultrapassar a subnotificação dos casos.
Para isso, este responsável defendeu a necessidade de os hospitais saberem quantos doentes tratam e quanto custam: “Quando cruzarmos toda esta informação temos a realidade marcada”, sustentou Henrique Barros.
Para combater a subnotificação, o coordenador nacional anunciou que a declaração da infecção pelo VIH pode ser feita pelos laboratórios, farmácias hospitalares e pelos 18 Centros Distritais de Aconselhamento e Diagnóstico, além dos médicos.
Os números do Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis (CVEDT), do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, indicam que, desde 2002, tem diminuído o número de casos notificados anualmente, bem como o número de mortos devidos à infecção.
O coordenador da sida reconhece que “os números notificados diminuíram” mas, contrapõe, “não se tem uma dimensão exacta da declaração de notificação”, pelo que os dados oficiais podem não reflectir a realidade. Ultrapassar esta situação passa por “assegurar que os hospitais têm as condições técnicas para fazer a declaração de uma forma que não implique retirar tempo à acção activa dos médicos, que são os profissionais que declaram”.
'NÃO INOVADORES'
José Miguel Boquinhas, administrador do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, garante que “não corta despesas na aquisição dos medicamentos inovadores”, mais caros em relação aos existentes, uma vez que são as novidades terapêuticas e representam o investimento feito pela indústria farmacêutica.
Em ano de contenção orçamental seria de esperar um “apertar do cinto” nestas despesas, mas o administrador garante que não: “É verdade que os medicamentos para o tratamento da sida e cancro são as terapêuticas mais caras, mas não vamos reduzir despesa com os inovadores para os doentes com sida porque alguns podem desenvolver resistências. Provavelmente com alguns doentes poderá compensar, não com todos”, disse.
'HÁ MUITA DESCRIMINAÇÃO E ATÉ DESPEDIMENTOS'
A discriminação social é um dos problemas com que se debatem os doentes infectados com o vírus da sida. Era assim há 20 anos em Portugal e é assim que o problema ainda se mantém, volvidas duas décadas. Para evitar o estigma, a maioria dos doentes opta por evitar expor-se para não sofrer represálias no emprego e até mesmo no meio familiar.
Amílcar Soares foi infectado em 1986, tinha então 20 anos. Passados quatro anos teve a coragem de dar a cara pelos doentes mas pagou o preço: foi despedido. Um desvinculamento que ocorreu, não no local de trabalho, como seria de esperar, mas na sua casa.
Ao CM recorda os maus momentos que viveu nos primeiros meses de 1991, depois de ter dado uma entrevista a uma rádio do Porto. “Depois de sabermos que estamos infectados levamos algum tempo até nos adaptarmos à doença, o que pode levar dois ou três anos. Foi o que me aconteceu. No final de 1990 dei uma entrevista à Rádio Nova do Porto. Passados uns três meses, em Março, a estação voltou a repetir a entrevista a pedido dos ouvintes. Nessa altura o meu chefe – trabalhava numa empresa gráfica – ouviu a entrevista e quis despedir-me. Foi a minha casa comunicar-me a decisão da empresa.
”A justificação dada, logo no dia seguinte, foi a de que “podia contaminar um colega se me cortasse no papel”.
SINDICATO DEMARCOU-SE
Amílcar Soares, 52 anos, recorreu ao sindicato na esperança que o auxiliasse na acção do “despedimento sem justa causa”. Isso não aconteceu, para sua surpresa. “Responderam-me que não era uma questão laboral.”
A solução foi contratar um advogado, mas as surpresas não ficaram por aí. Esperava ir a julgamento mas o mais longe que conseguiu ir nos caminhos da Justiça foi até ao gabinete do juiz: “Não era isso que queria e até tive de ouvir do juiz que eu tinha o que merecia.
”Segundo Amílcar Soares, nesses tempos “ainda havia muita falta de informação e muita discriminação. Hoje não mudou muita coisa”.
Um dos aspectos que, na sua opinião, contribui para a falta de informação dos portugueses nas questões da sida é que as campanhas são dirigidas a grupos. “A Coordenação da Sida faz campanhas dirigidas a homossexuais e por isso as pessoas continuam a pensar que não é nada com elas, porque não se identificam com o problema. As campanhas informativas devem ser dirigidas a todos.”
Amílcar Soares acabou por deixar o Porto e ir viver para Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Belas-Artes, especializou-se em Escultura e fundou a Associação Positivo – Grupo de Apoio e Auto-Ajuda, na capital.
PERFIL
Amílcar Soares tem 52 anos e sentiu na pele o estigma da discriminação social há 20 anos. Conta que hoje ainda ocorrem situações semelhantes com outras pessoas infectadas com VIH.
MAIS INFECTADOS NO ALGARVE
No Algarve o número de infectados aumentou este ano entre 30 e 40 por cento, relativamente ao ano passado. “Dois terços dos casos foram detectados já nas urgências hospitalares”, revelou ontem Carlos Santos, responsável pelas consultas de VIH/Sida do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão. Este dado “preocupante” prova que a maioria das pessoas está infectada sem suspeitar e, “quando tardiamente toma conhecimento, já terá infectado muitas outras pessoas”. Verificou-se ainda um aumento de infectados entre pessoas com idades superiores a 50 anos. A maioria dos parceiros desconhece que “está a dormir com o inimigo”.
DOENÇA JÁ VITIMOU 25 MILHÕES
Os casos de sida têm vindo a aumentar em todo o Mundo e Portugal não escapa à epidemia que já vitimou mais de 25 milhões de pessoas dos cinco continentes desde que foi diagnosticado o primeiro caso, há 25 anos. Para inverter esta dura realidade o Parlamento Europeu aprovou ontem, em Bruxelas, uma resolução política na qual critica a falta de atenção atribuída à prevenção e o “financiamento insuficiente” para o combate à doença.
Na resolução o Parlamento Europeu alerta para a “falta de acesso aos medicamentos indispensáveis” por parte dos doentes, “o insuficiente financiamento” e a “ausência de investigação sobre as grandes epidemias”. No documento aprovado, o Parlamento exorta a Comissão Europeia a aumentar para mil milhões de euros a contribuição para o Fundo Mundial de Luta Contra a Sida, a Tuberculose e o Paludismo.

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